sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Da liberdade de credo...

Feliz natal para o cristão...
mas o que dizer ao pagão?
Ao apóstata, herege ou ateu,
àquele que já decidiu,
como Nietzsche, que deus morreu?
Manda pra putaquiopariu?


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

...

De minha vida escrevo um blues,
mas o que eu sinto é hard core.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O Balanço

Deus me livre
que um dia encontre meu filho
pendurado em uma árvore,
no estranho balanço
com o vento a empurrá-lo
[de sul a norte.

Deus me livre
que as cordas sustentem
o seu peso ainda tão jovem,
o seu coração irrequieto
sem mais ranger, sem
[um porquê.

Deus me livre
não relembrar seus sorrisos
quando olhar esse cajueiro
e ter que manda-lo cortar
e cimentar todo o jardim.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TUIN


O cabelo encaracolado,
que muitos chamam de pixaim,
não deveria ser condenado
com o mau título de ruim.

Por menor que seja seu cacho
não deveria ser esticado,
nem assim podado tão baixo
que pareça envergonhado.

Ele cresce, enfrenta o sol
em cabeças de black armado
mantendo a sua luta em prol
de deixar seu clarão ofuscado.

E não tapa com uma peneira
esse formato arredondado
do tal arbusto-cabeleira:
é nuvem em dia ensolarado.

Como poderia ser tão ruim
o enrolar de teus cabelos?
Bom de verdade é o mais tuin,
porque ruim mesmo é não tê-los.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Um Partido

Às vezes, quando volto pra casa mais baixo que de costume, penso no que sou: a soma de minhas falhas, a sombra do que poderia ter sido e que desfiz como gelo a derreter-se na pia.

Deixei que o acúmulo dos detritos depositados no Capibaribe e o esgoto do Beberibe, na linha da água e no anzol, alimentassem as estruturas desse meu corpo de sal.

Tornei-me esta poluição, esta fumaça de mim mesmo sufocando os carros.

Esta piada tão batida e mal contada que não causa nem sequer indiferença.

No hoje, sou apenas a frustração, a mágoa, o rancor... Poeta não, que é palavra desonesta. 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

...engarrafado.

Há dias em que o vermelho do semáforo
não entende teus anseios de liberdade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

O Perfume da Doida

Mas que aroma louco
tem o seu pescoço!
é chocolate... é canela...
É cheiro de rosa amarela...
Ah! É cheiro de flor!

Parece que você tirou,
agora, biscoitos do forno
e o seu corpo se inundou
com esse seu cheiro tão morno.

Ah! É o cheiro do seu beijo
movendo-se pela brisa
na velocidade da preguiça
em seu sorriso de bocejo.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

um poeminha curto

quando o mau tempo
seu sol me veta
abro um céu qualquer
e finjo ser poeta

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

HOMEM (II)

Tu sabes, homem, és feio!
Sempre foste, fruto verde ou maduro.
Eras feio quando nasceste,
Serás muito mais ainda em teu futuro,
e após da dor de tua morte.

(Mesmo que tudo isto pouco te importe
pois serás, por uma vez mais,
um a mais entre os teus semelhantes.)

Com olhos desajustados
e essa tua cara tão desalinhada,
um coração rancoroso,
envolto na dura pedreira que
não será dinamitada.

Feio foi o fatal fruto de tua semente:
medo e desespero de
bebês horríveis que choram sem dentes.
Pois teu amor não se embeleza, 
não haverá musa linda o suficiente.

E este será teu legado:
Esses olhos, mais que tristes, amargos;
a gastrite doendo-te a alma;
um fungo voraz comendo tua unha;
em teu nome a vil alcunha
de errante, louco perdido a vagar;

o instinto de se destruir
e quando não conseguir, se matar.




quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Inutilidades

Inútil é essa vida em prosa
Em que nem mesmo a rosa
tem significado algum.

Inútil é ser mais um
comprador e vendedor
de carne, droga e amor,
de armas, arroz e feijão,
sorrisos, apertos de mão
e aparelhos de celular.

É tão inútil garimpar
no coração do poeta
aquela palavra certa
feita de sangue e mar

É inútil essa ferida
latejante em meu calcanhar
doendo em minha vida.

É um céu de tão azul
ficar vermelho no fim da tarde.
É o olho de Christine
tão branco, cheio de sal.

Inútil é toda a letargia
de um mundo sem poesia.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

SESTA

No momento depois da ceia,
por mais que evite,
tentando gostar do sofá,
dói-me a gastrite.

Recolho, então, minhas armas
antes em riste,
pois dói-me mais aquela briga.
(puro palpite...)

Na céu da boca, o refluxo:
o suco gástrico,
resquício e dessabor do almoço:
rançoso, ácido.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NÓ

a Ricardo Diniz

Escrevo como alguém que tenta
Desatar o nó na garganta
Que ficou tanto tempo sedenta
Que perdeu de água a esperança

Escrevo como quem contraiu Chagas
E leva bem inchado o coração
E não restam tantas palavras,
Já que não lhe sobra respiração

Escrevo como se tantos poemas
Aliviassem ao menos a dor.
Quem dera o maior de meus problemas
Fosse a manjada rima: amor!