domingo, 11 de setembro de 2011

MAIS VALIA

Trabalha e trabalha
Não pode parar!
Porém a mão falha
Por não aguentar
O fio da navalha
Que desce a cortar
O alto da palha
Da cana a voar

O facão que talha
As hastes no ar
Também espalha
O sangue a jorrar
Nos dedos, uma malha
Tentando estancar
E o olho esbugalha:
É a morte a chegar!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CONJUNTIVITE

Hoje meus olhos amanheceram pregados
Remelados excessivamente
Como que por concreto armado
Tapara-se a porta da frente

domingo, 4 de setembro de 2011

Alzheimer

Quando os longos anos tingirem de branco
os cabelos, que por hora tenho tantos,

começarei a esquecer meu endereço,
os aniversários e estações do ano
e a meu filho direi: "Não te conheço!"

Por fim, todos sonhos não realizados
e todo abandono de ser humano.
Restará só meu riso emoldurado!

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

ÍCARO

O elevador parou no décimo quarto andar.
Para não perder a viagem,
Decidiu subir mais um lance de escadas.

Décimo quinto andar:
O olho se enche de uma lágrima grossa, rançosa, ressentida,
amarga da curta vida.
Preparando para ser fixador da fotografia
do enorme campus a ser gravada na retina.
A vista mais distante pede para não ser parte do cenário.

(Talvez não seja tão feio morrer com um ipê-amarelo nos olhos).

O nó na garganta se trava
O parapeito é que é muito alto
Para qualquer último salto
E não lhe resta mais palavra

Talvez reze,
Talvez peça que não seja pecado o seu ato

Talvez respire assim tão fundo
Que todo oxigênio do mundo
Não caiba dentro do pulmão

Talvez pense:
Aqui se acaba a solidão!

Abre as asas previamente derretidas pelo sol, pelos risos,
Pelas penas a serem defenestradas

As penas se espalham
São negras, azuis e amarelas
tingidas com a anilina mais barata,
dessas que se desbotam na chuva

(Como as de quem não primou por um acabamento perfeito)

A cera goteja
E assim se esparrama no chão
Cobrindo todo seu corpo
Como casulo de abelha

E é vermelha
tão vermelha
que tem cor de telha
Aquela cera

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Crônica

Enquanto o destino tenta pôr-nos a prova
Em resposta a tantas vidas feitas em prosa

Releio aqueles meus remendados versos
Eu apago, reescrevo e escanciono
Escolhendo as rimas nos tempos certos

Então, como cronista de meu dia
Relato a vida: gozo e abandono
Em toda sua infinita poesia

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Estômago

                          para Christine

Quando se está com sobrepeso
E golfa-se em um bocejo
O gordo sente-se um Obeso!

sábado, 20 de agosto de 2011

DEVIR

Quando eu for pouco menos que uma lembrança
E pouco mais que o sustento de uma planta

Esperarei brotarem em botões
Os dias que estavam já enraizados
Nas negras paredes de meus pulmões

E assim cumprirei a sina de ser gente
Guardado no chão duro argiloso
Plantado lá, como uma semente

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Sol – Vide Bula

Ao abrir as janelas de aço,
Abro o sorriso e injeto
Os raios desse sol direto
Na veia saltada do braço

Porque é a luz intravenosa
O que dilata a pupila
deste coração que brilha
por uma risada nervosa

Mas a luz do sol intenso,
Que aparece num sorriso,
Apaga quando é preciso
Poupar-se num dia tenso

E se extingue também quando
O lado mais escuro da alma
Treme por medo e não cala
Contra meu próprio comando

quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOBRE ALGUMA POLÍTICA


Em alguns momentos,
é preferível a chuva
E a inundação,
Também a Guerra
E a inanição.

Em alguns destes dias,
(estratégicos, obviamente!)
É melhor mesmo que todos se calem,
E unam-se a um sonoro silêncio:
Permanecendo em seu devido lugar

Pois é necessário o desastre,
O analfabetismo e a miséria,
A desnutrição e a disenteria,
Infindáveis amputações
e um tanto assim de sofrimento

Tudo isso: em prol de um bem maior!

Pois, depois que passam os difíceis tempos 
(que são meramente pontuais)
Todos sabem:
Vão-se os dedos, mas ficam-se os anéis!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Dez-dobras

Vi vidas
vividas
Por outros e por aí

Mas

vivi da
vida
vivida
unicamente por mim

não me arrependo, porém,
de ter vivido
do olvido
Do teu ouvido
Que não escutou minha voz
pois não havia nem nós, nem vós
Quando estávamos sós em sóis 
tão  d  i  s  t  a  n  t  e  s
e nos instantes 
s  e  p  a  r  a  d  o  s
por sistemas solares diferentes
de galáxias talvez opostas

Então, já doído das doidices deste mundo
e afirmando-me enquanto doido de pedra
desdobrei [brei-do-des]
o que havia escondido

E tu, como es contido,
não me reprimiste verbalmente
pois tu sabes
que tudo o que for verbal: mente
tanto na mente, quanto no verbo!

Verdade Absoluta


M E N T I R A

domingo, 12 de junho de 2011

O VELHO BRÁS

Brás era um velho preto,
às vezes, um preto velho,
Vivia embriagado, o vigia
do edifício, no turno da noite

O seu salário, já mínimo,
De dor e de dar pena,
Ficava com o dono do bar,
Que, como um bom cristão,
Não deixava faltar bebida

E tomava mais uma lapada
Do chicote, no bucho sedento,
Ferrava um sono pesado,
Cavalgava em seu devaneio

Brás cantava toda noite
Montava a cambaleante bicicleta
Conduzida por um sonho alheio

Ria e contava piada,
Chorava a morte da mãe,
Que perdeu quando era menino

E velho Brás dançava
Gargalhava com a boca banguela,
Falava de um tempo perdido
Com domínio da norma culta
Do seu português tão ébrio,
De quem só conhece escrita
Do nome do próprio batismo
O velho, às vezes, chorava
E ria com mesma frequência!
Chorava a demência da filha,
Mas sorria, o vazado sorriso,
Alegre por horas inteiras

E eu que era menino,
Judiava do pobre Brás,
Fingia ser o espírito
Da falecida mãezinha,
Fazia o velho cair,
Roubava a cana-companheira

E toda a pirralhada
Ria do preto velho
Bastava ele chegar

Declamava a primeira toada,
Cantava a Iansã, orava a Frei Damião,
Amarrava as calças furadas
E ria com os olhos do cão

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Flor

Dormi: esqueci os problemas,
Sonhei (com momentos alheios)
Comi: um maná divino
Brotado em pedras do deserto

Alonguei: todos os músculos
Relaxei: o queixo e o pescoço
E respirei: profundamente
Algum pensamento qualquer!

Destravei: a nuca e o braço
Demorei: demoradamente,
Como quem esquecera o tempo
E já a pusera na mente

Senti-me, então, um demente!
Pois, como que naqueles momentos,
De tanta vida crescente,
Estive com ela ausente?

sábado, 4 de junho de 2011

Poesia Concreta

Se minha poesia fosse concreta
Atiraria vigas em seus ouvintes
Causaria desabamentos rotineiros
e insistiria em deixar encarceirados
Dentro de minúsculos cubículos
ou por debaixo dos entulhos
todos que nos trucidam diariamente

Se essa poesia fosse concreta
Subiria as encostas dos morros
taparia as passagens da água
E haveria mais enchentes
E desastres que de costume

Se essa poesia fosse concreto-armado
Armaria toda a população com fuzis, escopetas,
Alguns homens de verdade teriam canhões,
Outros pistolas e facas amoladas nos dentes!
Guilhotinaria nosssos reis e sultões
sob os seguintes dizeres:

"Todo bom cidadão
tem por direito
Matar um mau político"

Minha poesia, porém,
não é concreta!
Ela é tão abstrata
Que nem eu sei
sobre o que escrevo!