Meu filho,
o vento já dobra minha coluna
e os anos se acumularam em azulejos e tijolos
a tapar-me as pálpebras,
minha barba e cabelos adquiriram este tom
de outono e inverno
ou da fogueira depois da morte do último tição.
Só me resta rastejar,
temer a noite e seus perigos,
andar tateando os móveis
e esconder-me embaixo de minha cama,
enquanto me ronda
a ingrata amiga com sua foice.
Por isso,
deixo meu último conselho:
aproveite o seu dia
e não me tenha como exemplo.
Não tente, como eu,
se prolongar neste último verso.
4 comentários:
fabuloso!! dose de nostalgia, sensibilidade e cotidiano!!! gostei demais.
Bom demais, caro amigo!
Difícil realmente nos contentar que a vida seja limitada em alguns pares de décadas. Talvez seja esta a necessidade-mor de todas as sociedades, desde a mais remota possível, de tentar encontrar uma explicação, um caminho, qualquer coisa que nos indique que ela continua além-túmulo.
Aproveitar a vida a cada segundo é um excelente conselho que seu eu-lírico pôde conceder!
Muita paz!
triste =[
Nu com a minha lâmina
Dispo-me de minha carne.
Um silêncio rugidor
De latido de cão
Reverberando noite a fora...
Os escombros rodeados
Do presente vivo do passado.
Meu corpo Nauseante,
Cambaleante!
Embriagado de lua
E a luminosa face contorcida
Ébria sobre o toque da navalha fria
Que delicadamente faz a barba
Esbranquiçada pelos anos.
Um pensamento perpassa
Guardado na memória
Como numa gaveta fechada a chave!
Tudo o que fui
E o que não pude ser
Tudo o que fiz
E o que deixei de fazer...
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