segunda-feira, 26 de setembro de 2011

JUVENTUDE

Nenhum poeta na minha idade
Será reconhecido
Enquanto anda pela cidade

Nenhum poeta na minha idade
Será bastante lido
Por ter poesia de qualidade

Nenhum poeta na minha idade
Será muito querido
Pois não será uma assumidade

Porque na minha idade
Um poeta é mais um vagabundo
Cheio de muita vaidade

Porque na minha idade
Um homem constrói o próprio mundo
Vivendo a realidade

Porque, é a pura verdade,
Ninguém se importa o quão profundo
a minha dor se acabe

terça-feira, 20 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

OS OLHOS DO CÃO

No meio do caminho, vi uma cena mórbida
Olhei os olhos de um cão, fora de sua órbita

Ele fora esmagado por uma carreta
Com todas suas dezesseis rodas largas
que passaram por cima da cabeça

Por obra do acaso, um olho inteiro
Fitava os meus com sua pesada carga
E reprimia meu olhar de carniceiro

sábado, 17 de setembro de 2011

HOMEM

Para provar que a verdade
era sua testemunha
trazia uma identidade
e o registro de nascimento
indicando um povoado
lá perto de Riacho das Almas,
onde o espírito de sua mãe
descansava, havia quarenta anos.

Para provar que o facão
retalhou-lhe a juventude
trazia as mãos muito grossas,
os dedos também bem largos,
embaixo dos documentos,
pelos tantos anos passados
em São Lourenço da Mata
por causa do corte da cana.

Para provar a fome
não chorava – falava lento –
e pelo hábito da profissão
também cortava as palavras.
A filha tão moça mataram.
Deixara um neto pequeno,
que precisava comer.
E ele agora já velho e analfabeto,
no Recife, não tinha emprego.

Busquei por alguma moeda,
Não tinha nenhuma comigo.
Mas ele nem me olhou.

Ignorou meu burguês camarote
de estudante universitário
pagando meia-passagem.

Logo eu, que por tantas vezes,
dei trocados só para me livrar
dos olhos do pedinte.

domingo, 11 de setembro de 2011

MAIS VALIA

Trabalha e trabalha
Não pode parar!
Porém a mão falha
Por não aguentar
O fio da navalha
Que desce a cortar
O alto da palha
Da cana a voar

O facão que talha
As hastes no ar
Também espalha
O sangue a jorrar
Nos dedos, uma malha
Tentando estancar
E o olho esbugalha:
É a morte a chegar!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CONJUNTIVITE

Hoje meus olhos amanheceram pregados
Remelados excessivamente
Como que por concreto armado
Tapara-se a porta da frente

domingo, 4 de setembro de 2011

Alzheimer

Quando os longos anos tingirem de branco
os cabelos, que por hora tenho tantos,

começarei a esquecer meu endereço,
os aniversários e estações do ano
e a meu filho direi: "Não te conheço!"

Por fim, todos sonhos não realizados
e todo abandono de ser humano.
Restará só meu riso emoldurado!