domingo, 24 de abril de 2011

Chá de trombeta


Andando em seu Éden pessoal
José pensou que era santo
Escutou as trombetas dos anjos
Nos lírios no canto da casa

E em seu delírio branco
Esmigalhou cada pétala,
Ferveu seu dia em um chá,
Bebeu o paraíso em dois goles grandes

Aquela flor coloriu tanto
A sua vida, antes tão fosca,
Que José decidiu viajar
e nunca mais voltou!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Homem-Bomba

Quando chegar em casa
Com essa bomba chiando
Desafivelarei o cinto de meu peito
E sozinho,
                Deixarei tudo explodir!

Vitrine


Na vitrine, pensei que eras manequim,
Vestias um colete de borboletas
E uma dessas calças de brim

Tive vontade de comprar-te
E levar-te para minha casa

Te observaria por horas a fio
E te consumiria por toda a vida

Então percebi
Que não estavas a venda!

sábado, 2 de abril de 2011

DESFIGURA

Tenho me destruído por partes,
Cada dia, arranco um pedaço,
Me consumo e me desfaço
Em tantos e diversos encaixes

Em peças empilhadas desmontáveis
Dos quebra-cabeças que sou
De vários sentidos descartáveis,
Formo-me e deformo-me,
Despedaçando-me onde vou

Deixo pra trás, então, um rastro
De vasto sentido destroçado
Do que fui e não sou mais
E do que jamais terei passado

O que me resta então é o aguardo
O medo de quando não houver
nem sobra, nem resto guardado,
E o pensamento não mais puder
Ser nem ao menos arruinado

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Objetivos

Abro o blog,
estampada está a pergunta:
"Quem sou eu?"


- Quando souber,
deixo de escrever!

Uma ideia


Eu rimo mais ideias
E nem sempre palavras
Pois as palavras são o arrimo
Das ideias inacabadas

As ideias depois de vertidas
Se consolidam, coaguladas
Nos condenam em muitas frases
E em fases mal fadadas

Por isso, prefiro sempre
As ideias que as palavras
Porque não há obrigação em ideias
Pois nem sempre são realizadas

As palavras, porém, após ditas
Não podem ser retiradas
Eu, por outro lado, me conforto
Em ter ideias, quando quero, apagadas

Mormaço

A transpiração nas horas insones
do mormaço que antecede a chuva
nas madrugadas quentes – entrecortadas –
Sem náusea, sem vento, só o ventilador gira ...
Controlado pelo medo das próprias janelas
Fechadas pelos demônios
que permaneceram do lado de fora
Golpeando-a:  “Deixa-me entrar!!!”

Quando me escondo, em meu peito desnudo,
suado e sem lençóis, os dedos tocam a face,
a boca seca e a voz pela metade contestam:


“Não há o que ver aqui, amigo,
Só as hélices que circulam sobre minha cabeça”
"Deixa-me ver também as hélices”


“Mas para quê?
Se há tanto vento e vida ai fora!
Fica aí mesmo!
Aqui dentro estou preso!
Há grades em minhas portas,
Me escondo nessas paredes,
Fiz de mim, meu próprio exílio...”

“Tu não entendes a solidão,
Ainda tens as hélices...!”

Diálogo do timoneiro persa com seus botões

O que me enerva
Não é o ópio,
Nem a erva,
Ou a bebida que me destrói,
bendita droga da destruição!

Querida,
O que me corrói
Não é a droga,
É a vida,
Que é, quase sempre,
do mesmo jeito de sempre!
E acaba sempre
Do mesmo jeito de sempre!

A bailarina

A bailarina cantou uma canção.
Foi tão pequenina, tão simples,
que nem notei quando terminou!
Então a menina não dançou
e parou seu canto (de menina!)
Pois não tinha mergulhado de cabeça
em todas as piscinas que podia
Nem visto o que lhe esperava no final da festa!
Estava muito mais preocupada com asas das borboletas,
Com as casas das vespas,
Onde o sol se esconde de noite...
Essas bobagens que só intrigam os poetas...

PALMA

Na palma da mão há o céu
o céu na mão e na alma
a alma da mão é o véu
que esconde os olhos e a fala

a palma da mão é a concha,
o buso do mar da voz,
que ecoa no ouvido o segredo
que vai e volta na boca

a palma da mão leva o ser
numa linha intransferível da vida
A palma da mão é o prazer
Que vem, que vai e que finda

Na Sistina, a palma da mão é o dedo
que aponta as verrugas e os erros de deus