quinta-feira, 23 de junho de 2011

SOBRE ALGUMA POLÍTICA


Em alguns momentos,
é preferível a chuva
E a inundação,
Também a Guerra
E a inanição.

Em alguns destes dias,
(estratégicos, obviamente!)
É melhor mesmo que todos se calem,
E unam-se a um sonoro silêncio:
Permanecendo em seu devido lugar

Pois é necessário o desastre,
O analfabetismo e a miséria,
A desnutrição e a disenteria,
Infindáveis amputações
e um tanto assim de sofrimento

Tudo isso: em prol de um bem maior!

Pois, depois que passam os difíceis tempos 
(que são meramente pontuais)
Todos sabem:
Vão-se os dedos, mas ficam-se os anéis!

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Dez-dobras

Vi vidas
vividas
Por outros e por aí

Mas

vivi da
vida
vivida
unicamente por mim

não me arrependo, porém,
de ter vivido
do olvido
Do teu ouvido
Que não escutou minha voz
pois não havia nem nós, nem vós
Quando estávamos sós em sóis 
tão  d  i  s  t  a  n  t  e  s
e nos instantes 
s  e  p  a  r  a  d  o  s
por sistemas solares diferentes
de galáxias talvez opostas

Então, já doído das doidices deste mundo
e afirmando-me enquanto doido de pedra
desdobrei [brei-do-des]
o que havia escondido

E tu, como es contido,
não me reprimiste verbalmente
pois tu sabes
que tudo o que for verbal: mente
tanto na mente, quanto no verbo!

Verdade Absoluta


M E N T I R A

domingo, 12 de junho de 2011

O VELHO BRÁS

Brás era um velho preto,
às vezes, um preto velho,
Vivia embriagado, o vigia
do edifício, no turno da noite

O seu salário, já mínimo,
De dor e de dar pena,
Ficava com o dono do bar,
Que, como um bom cristão,
Não deixava faltar bebida

E tomava mais uma lapada
Do chicote, no bucho sedento,
Ferrava um sono pesado,
Cavalgava em seu devaneio

Brás cantava toda noite
Montava a cambaleante bicicleta
Conduzida por um sonho alheio

Ria e contava piada,
Chorava a morte da mãe,
Que perdeu quando era menino

E velho Brás dançava
Gargalhava com a boca banguela,
Falava de um tempo perdido
Com domínio da norma culta
Do seu português tão ébrio,
De quem só conhece escrita
Do nome do próprio batismo
O velho, às vezes, chorava
E ria com mesma frequência!
Chorava a demência da filha,
Mas sorria, o vazado sorriso,
Alegre por horas inteiras

E eu que era menino,
Judiava do pobre Brás,
Fingia ser o espírito
Da falecida mãezinha,
Fazia o velho cair,
Roubava a cana-companheira

E toda a pirralhada
Ria do preto velho
Bastava ele chegar

Declamava a primeira toada,
Cantava a Iansã, orava a Frei Damião,
Amarrava as calças furadas
E ria com os olhos do cão

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Flor

Dormi: esqueci os problemas,
Sonhei (com momentos alheios)
Comi: um maná divino
Brotado em pedras do deserto

Alonguei: todos os músculos
Relaxei: o queixo e o pescoço
E respirei: profundamente
Algum pensamento qualquer!

Destravei: a nuca e o braço
Demorei: demoradamente,
Como quem esquecera o tempo
E já a pusera na mente

Senti-me, então, um demente!
Pois, como que naqueles momentos,
De tanta vida crescente,
Estive com ela ausente?

sábado, 4 de junho de 2011

Poesia Concreta

Se minha poesia fosse concreta
Atiraria vigas em seus ouvintes
Causaria desabamentos rotineiros
e insistiria em deixar encarceirados
Dentro de minúsculos cubículos
ou por debaixo dos entulhos
todos que nos trucidam diariamente

Se essa poesia fosse concreta
Subiria as encostas dos morros
taparia as passagens da água
E haveria mais enchentes
E desastres que de costume

Se essa poesia fosse concreto-armado
Armaria toda a população com fuzis, escopetas,
Alguns homens de verdade teriam canhões,
Outros pistolas e facas amoladas nos dentes!
Guilhotinaria nosssos reis e sultões
sob os seguintes dizeres:

"Todo bom cidadão
tem por direito
Matar um mau político"

Minha poesia, porém,
não é concreta!
Ela é tão abstrata
Que nem eu sei
sobre o que escrevo!