terça-feira, 28 de agosto de 2012

O Patriarca

Meu filho,
o vento já dobra minha coluna
e os anos se acumularam em azulejos e tijolos
a tapar-me as pálpebras,
minha barba e cabelos adquiriram este tom
de outono e inverno
ou da fogueira depois da morte do último tição.

Só me resta rastejar,
temer a noite e seus perigos,
andar tateando os móveis
e esconder-me embaixo de minha cama,
enquanto me ronda
a ingrata amiga com sua foice.

Por isso,
deixo meu último conselho:
aproveite o seu dia
e não me tenha como exemplo.
Não tente, como eu,
se prolongar neste último verso.

sábado, 18 de agosto de 2012

O que fazer?

A mim, peço que me deixes num terreno baldio
e espere que os bichos venham e devorem minha face.
Depois, olhe bem em meus olhos e pergunte:

"Quem és tu, poeta descartável!?
Atado ao nada de ti mesmo
e fadado a um ato assim tão podre?
Agora, só contaminas esse lote com tua química
e daí, bem sabes, só brotarão tumores."

Depois, me amarre em suas costas
e carregue até tua casa,
só por delicadeza,
me apresente a todos teus amigos:
"Olhe, este era meu amigo,
era como um irmão para mim
ou o pai que nunca conheci!" 

A outro diga:
"Não te envergonhes,
pode olhar sua boca aberta...
Por que não encarar os tapurus em seus lábios?
Por favor, não se reprima!
Vomite se achar necessário!"

Então, quando me considerares inútil
até para os teus chegados,
recite um poema meu qualquer,
cante uma canção que eu gostava
sobre os porcos nas nossas asas,
ou o brilho dos diamantes,
uma dessas que me fazia lembrar que estava vivo.

E se por acaso eu me mexer
ou aparentar dançar com meu cadáver torto,
não se preocupe, saberei: "ainda estou morto"
e não voltarei para dizer-te nada
ou assustar-te nas noites mais frias,
mas é que a música ficou gravada em meus pés
e a dança era uma parte mais fluida em mim do que a palavra.

Porém, se nada disto acontecer
não tenhas medo,
acalme teus companheiros
meu corpo seguirá vazio,
tão desalmado quanto sempre.
Não gastes mais teu tempo a recordar o inexistente,
passe para o próximo momento:
a vida é isto.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Serpente

Será que a serpente sente
que foi uma condenação
arrastar o seu duro ventre
entre as folhas secas no chão?

Será que ela está consciente
de seu tamanho pecado
e ainda guarda dormente
na boca a língua do Diabo?

Será que se arrependeu,
por isso ela se fere:
como um castigo de Deus
arranca a própria pele?

Será que ainda tem conversas
escusas com Satanás?
Se juntam todas as terças
e criam pecados mortais?

Será que ela se enrosca
em seu tridente medonho?
E tem carícia nas costas,
riquezas, como num sonho?

A serpente só se importa,
na verdade, com sua toca
e com sua vítima morta,
espremida toda torta,

dando uma boa refeição.
O seu ataque sorrateiro
não é por outra condição,
com o seu bote certeiro

ou aleja ou mata o cristão.
Médico, padre ou coveiro
sabem que não há salvação
se ela está num oitizeiro,

pois neste dia tão fatídico
não terá em qualquer lugar,
nenhum soro anti-ofídico
que consiga lhe curar.

Mas toda e qualquer serpente
sabe, em seu rastejar
sinuoso e intermitente,
quando ficar ou avançar.

E gosta de ser serpente,
prefere o áspero piso
a ter de ser como a gente
que mente forçando o riso.