quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A Serpente

Será que a serpente sente
que foi uma condenação
arrastar o seu duro ventre
entre as folhas secas no chão?

Será que ela está consciente
de seu tamanho pecado
e ainda guarda dormente
na boca a língua do Diabo?

Será que se arrependeu,
por isso ela se fere:
como um castigo de Deus
arranca a própria pele?

Será que ainda tem conversas
escusas com Satanás?
Se juntam todas as terças
e criam pecados mortais?

Será que ela se enrosca
em seu tridente medonho?
E tem carícia nas costas,
riquezas, como num sonho?

A serpente só se importa,
na verdade, com sua toca
e com sua vítima morta,
espremida toda torta,

dando uma boa refeição.
O seu ataque sorrateiro
não é por outra condição,
com o seu bote certeiro

ou aleja ou mata o cristão.
Médico, padre ou coveiro
sabem que não há salvação
se ela está num oitizeiro,

pois neste dia tão fatídico
não terá em qualquer lugar,
nenhum soro anti-ofídico
que consiga lhe curar.

Mas toda e qualquer serpente
sabe, em seu rastejar
sinuoso e intermitente,
quando ficar ou avançar.

E gosta de ser serpente,
prefere o áspero piso
a ter de ser como a gente
que mente forçando o riso.








7 comentários:

Unknown disse...

Lucas, meu caro, você é cobra criada!

Nicast disse...

sempre que passo aqui, gosto muito.
genial.

Jullio Machado disse...

Muito maneiro.
Isso me fez lembrar:


(...)No rastro a cobra, serpente rainha
Moleja sozinha, arrasta a bainha
Por dentro e por fora
A cobra caminha, medonho segredo
No seu requebrar, na lente da taça
No seu sibilar
As sílabas tremem, mulheres e plumas
Se enlaçam noturnas anéis que sufocam
Os dentes que mostras
Rebentados de tanto picar
Além do encanto, da flauta e do cesto
Conheço magias de te molestar
Não é de maçã,
Não é de manhã,
Não é de satã
Que eu quero falar

(Zé Ramalho)

Arnoldo Pimentel disse...

Talvez a serpente seja uma metáfora, mesmo porque o coração não está na forma, na imagem e sim camuflado.

Jefferson Bessa disse...


Muito bom, Lucas! Suas quadras desenham as "serpentes" que estão além das serpentes naturais.
Um abraço.

Lucielle Wiermann disse...

muito muito bom!!!

sonoridade de quem rasteja a procura de uma presa.

adorei.

Edna Albuquerque(dinhalove) disse...

Uma das coisas mais fodas que andei lendo,gostei muito e me identifiquei,estou seguindo essa tua periferia poética,convido-te a compartilhar de minhas nóias.

http//www.arquivonoturno.blogspot.com

http//www.universosagradofeminino.blogspot.com