sábado, 17 de setembro de 2011

HOMEM

Para provar que a verdade
era sua testemunha
trazia uma identidade
e o registro de nascimento
indicando um povoado
lá perto de Riacho das Almas,
onde o espírito de sua mãe
descansava, havia quarenta anos.

Para provar que o facão
retalhou-lhe a juventude
trazia as mãos muito grossas,
os dedos também bem largos,
embaixo dos documentos,
pelos tantos anos passados
em São Lourenço da Mata
por causa do corte da cana.

Para provar a fome
não chorava – falava lento –
e pelo hábito da profissão
também cortava as palavras.
A filha tão moça mataram.
Deixara um neto pequeno,
que precisava comer.
E ele agora já velho e analfabeto,
no Recife, não tinha emprego.

Busquei por alguma moeda,
Não tinha nenhuma comigo.
Mas ele nem me olhou.

Ignorou meu burguês camarote
de estudante universitário
pagando meia-passagem.

Logo eu, que por tantas vezes,
dei trocados só para me livrar
dos olhos do pedinte.