quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Inutilidades

Inútil é essa vida em prosa
Em que nem mesmo a rosa
tem significado algum.

Inútil é ser mais um
comprador e vendedor
de carne, droga e amor,
de armas, arroz e feijão,
sorrisos, apertos de mão
e aparelhos de celular.

É tão inútil garimpar
no coração do poeta
aquela palavra certa
feita de sangue e mar

É inútil essa ferida
latejante em meu calcanhar
doendo em minha vida.

É um céu de tão azul
ficar vermelho no fim da tarde.
É o olho de Christine
tão branco, cheio de sal.

Inútil é toda a letargia
de um mundo sem poesia.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

SESTA

No momento depois da ceia,
por mais que evite,
tentando gostar do sofá,
dói-me a gastrite.

Recolho, então, minhas armas
antes em riste,
pois dói-me mais aquela briga.
(puro palpite...)

Na céu da boca, o refluxo:
o suco gástrico,
resquício e dessabor do almoço:
rançoso, ácido.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

NÓ

a Ricardo Diniz

Escrevo como alguém que tenta
Desatar o nó na garganta
Que ficou tanto tempo sedenta
Que perdeu de água a esperança

Escrevo como quem contraiu Chagas
E leva bem inchado o coração
E não restam tantas palavras,
Já que não lhe sobra respiração

Escrevo como se tantos poemas
Aliviassem ao menos a dor.
Quem dera o maior de meus problemas
Fosse a manjada rima: amor!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Existência

no google,
busquei o conceito epistemológico
do existir.

muitos disseram
tanto faz, não importa...

outros,
é o ser:
é cagar,
é cuspir!

sábado, 8 de outubro de 2011

Balé

Enquanto ela dançava no palco
No meio exato do espetáculo
Tropeçou, deslizando em falso
E intentando um simulacro
Agarrou na velha cortina
Que se rasgou de cima a baixo
tombando de bunda pra cima

E tamanho foi seu fracasso
Tanta vergonha a bailarina
Sentia em seu rosto corado
Que chorava como menina
E lamentava a triste sina,
Em meio a um pranto inacabado,
De sozinha ter resvalado

E sua cara toda manchada
Num único borrão no talco
Vista pela gente calada
Destoava, meio ao terceiro ato
Como se houvera de fato
Perdido uma pessoa amada

Levantou-se então sozinha
Ajeitou o seu tule de seda
Enxugou a sua triste carinha
E olhando toda a gente azeda
Quando fugia para a coxia
Caiu, de novo, como uma bêbada

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

JUVENTUDE

Nenhum poeta na minha idade
Será reconhecido
Enquanto anda pela cidade

Nenhum poeta na minha idade
Será bastante lido
Por ter poesia de qualidade

Nenhum poeta na minha idade
Será muito querido
Pois não será uma assumidade

Porque na minha idade
Um poeta é mais um vagabundo
Cheio de muita vaidade

Porque na minha idade
Um homem constrói o próprio mundo
Vivendo a realidade

Porque, é a pura verdade,
Ninguém se importa o quão profundo
a minha dor se acabe

terça-feira, 20 de setembro de 2011

domingo, 18 de setembro de 2011

OS OLHOS DO CÃO

No meio do caminho, vi uma cena mórbida
Olhei os olhos de um cão, fora de sua órbita

Ele fora esmagado por uma carreta
Com todas suas dezesseis rodas largas
que passaram por cima da cabeça

Por obra do acaso, um olho inteiro
Fitava os meus com sua pesada carga
E reprimia meu olhar de carniceiro

sábado, 17 de setembro de 2011

HOMEM

Para provar que a verdade
era sua testemunha
trazia uma identidade
e o registro de nascimento
indicando um povoado
lá perto de Riacho das Almas,
onde o espírito de sua mãe
descansava, havia quarenta anos.

Para provar que o facão
retalhou-lhe a juventude
trazia as mãos muito grossas,
os dedos também bem largos,
embaixo dos documentos,
pelos tantos anos passados
em São Lourenço da Mata
por causa do corte da cana.

Para provar a fome
não chorava – falava lento –
e pelo hábito da profissão
também cortava as palavras.
A filha tão moça mataram.
Deixara um neto pequeno,
que precisava comer.
E ele agora já velho e analfabeto,
no Recife, não tinha emprego.

Busquei por alguma moeda,
Não tinha nenhuma comigo.
Mas ele nem me olhou.

Ignorou meu burguês camarote
de estudante universitário
pagando meia-passagem.

Logo eu, que por tantas vezes,
dei trocados só para me livrar
dos olhos do pedinte.

domingo, 11 de setembro de 2011

MAIS VALIA

Trabalha e trabalha
Não pode parar!
Porém a mão falha
Por não aguentar
O fio da navalha
Que desce a cortar
O alto da palha
Da cana a voar

O facão que talha
As hastes no ar
Também espalha
O sangue a jorrar
Nos dedos, uma malha
Tentando estancar
E o olho esbugalha:
É a morte a chegar!


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

CONJUNTIVITE

Hoje meus olhos amanheceram pregados
Remelados excessivamente
Como que por concreto armado
Tapara-se a porta da frente

domingo, 4 de setembro de 2011

Alzheimer

Quando os longos anos tingirem de branco
os cabelos, que por hora tenho tantos,

começarei a esquecer meu endereço,
os aniversários e estações do ano
e a meu filho direi: "Não te conheço!"

Por fim, todos sonhos não realizados
e todo abandono de ser humano.
Restará só meu riso emoldurado!