terça-feira, 15 de maio de 2012

DESILUSÃO


                                        a Frei Tito

É a mão do carrasco
a queimar o corpo inteiro com seus cigarros
a torturar esse homem
muito além do Cristo dentro de mim

É a conclusão de que
para mim não há mais solução:
Nem Jesus!
Nem Freud!
Nem Marx!



quarta-feira, 9 de maio de 2012

melANKLElico

De mansinho, me levanto
e num passo meio manco
sigo em meu caminho
e sinto dor.

O ritmo do corpo inteiro
é ditado pelo tornozelo:
um ponto. respiro fundo.
numa vírgula, disfarço a lágrima.
Me engasga um travessão
que não cabe em nenhuma página.

Esta dor é tão unitária
que não pode ser dialogada,
traduzida ou recriada.
Tomou-me de forma arbitrária
pelo pé e, agora, se espalha
por onde quer.

E eu bem sei que esta torção
sabe doer no ventrículo esquerdo
e foder com meu coração.


sábado, 5 de maio de 2012

Cidade panorâmica

                                                              à Miguel

Há aviões no teto da sala
e trens a traçar suas próprias ferrovias
nos rejuntes da cerâmica.
Há um doce caos que faz de todos,
 super-heróis, robôs, espaçonaves, tambores,
 animais de estimação, telefones celulares
e ímãs de geladeiras em formato de pássaros
iguais cidadãos da mesma metrópole:
uma imensa conurbação de sentidos e sentimentos,
num ciclo quase hindu de construção e destruição
- e renascimento.

Nascem novas possibilidades,
além do que me é permitido conceber
com minha percepção de homem.

Não adianta chorar em cima do leite derramado
que transformou todas as cores num imenso rio branco
desmanchando o sonho como se fossem biscoitos
dissolvidos num copo de solidão e desespero.

E entre as cabeças de monstros e ursos de papel machê
que povoam os nossos maiores medos,
ouve-se de muito longe, lá do fundo da memória,
um clarim anunciando a alvorada,
que traz novamente a tona um único pedido,
a tese final dos desejos mais íntimos:
- Pai, eu quero o carnaval!



segunda-feira, 30 de abril de 2012

Pus à mesa


Hoje, drenei de mim estas poucas palavras
como faço quando extraio esporadicamente
o cisto abaixo de minha orelha esquerda.
Espremi tudo o que podia até sentir-me dolorido e seco.

Vendo, agora, os resultados de minhas extrações,
colocando-as uma ao lado da outra,
na mesma mesa em que escrevo e me alimento,
não posso deixar de notar
que tudo o que toco em mim,
mais cedo ou mais tarde, infecciona.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mesmo com toda essa luz
azul e branca
do céu de um Recife escarlate,
há um cinza,
naquela nuvem lá,
que me persegue.

quinta-feira, 8 de março de 2012

PSICOPOETA

Não mimo o verso, sou poetassassino.
Degolo o que parece alexandrino.

Amputo o soneto, mato em haicai,
torturo o verso-livre mais e mais;
as penas que tive, as dissemino

e espero que tenhas todas iguais.
Que é para ver se teu sangue me lava,
levando essa dor em tripa e palavra.

terça-feira, 6 de março de 2012

Quatro sonetos-amputados de deserto e ódio.

           I

Caminho neste deserto de abril,
arrasto meu cadáver branco-anil.

O sol torra minha cara imbecil,
há sangue seco em meu nariz quebrado
e ressentimento em meu olho vidrado.

Nas areias, vejo o enésimo cantil,
- Talvez nele haja um gênio ou um anjo alado...
Não. Tal qual meu corpo está vazio.

           II

Carrego meu peso morto nas costas...
Na duna, escorrego pela encosta.

Caímos ombro a ombro e nos encaramos,
olho a bocaberta com que falei...
já não importa ter sido poeta ou rei...

Minha pele mais parece um pano,
Acaricio a face com desengano:
não posso mais retroceder, eu sei!

           III

Resta seguir até um oásis qualquer...
E vago incrédulo, como São Tomé...

Busco água, não para matar a sede,
pois ela já me matou sem piedade,
nem se importou com minha pouca idade.

Busco água e um rio com pradaria verde,
Onde possa recordar, me vingar.
Lá, me dissolver e o contaminar.

           IV

E, assim, quando me tornar diarreia,
serei mais que da vingança uma ideia.

E matarei talvez todos teus filhos,
contaminarei plantações de milho,
nesta  minha tão impiedosa reestreia.

E, no desfecho de minha sombria ópera,
todos sentirão sem mover um cílio
a dor mais terrível de minha cólera.




sábado, 3 de março de 2012

Sniper

A palavra atira o seu projétil.
Sibila 
no entendimento.
Se bala:
sílaba! 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nem sempre infeliz loucura

Levava um sonho alado
e um sombreiro enorme
feito de espuma de colchão,
onde do alto se viam uns sinais,
alguns círculos concêntricos
para se o talvez do acaso viesse
buscando-o para outro lugar
de espaço-naves ou discos-voadores,
o levassem e o reconhecessem como amigo
também habitante das estrelas.

Corria em meio a avenida
num ruflar de asas-depenadas
como um carcará desalado.
Desolado corria como se fosse
para tentar um novo impulso
e de súbito subir, decolar...

E, talvez, com seus pés de Hermes,
seus sonhos compensassem seus vermes.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Reescrevendo e PALAVRANDO

PALAVRANDO

Cada pá lavra seu campo
a minha, uma folha em branco.

Se mente do fruto ou da flor
colhida na intensidade da cor
forjando seu cheiro doce 
não é como se a culpa fosse
desta borracha-durafoice
a talhar as hastes dos sentimentos
e a espalhar seus restos e sedimentos
no chão do inconsciente.
Tão pouco é culpa da chuva
e seu gotejar inconsequente
que não permite que feijão ou uva
brote, ecloda de sua semente.

Culpada é a própria pá
que não lavrou
o campo certo
e este mau-agricultor
que se descuidou
deixando a semente exposta,
fraturada a céu aberto.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Palavrando

Cada pá lavra em seu campo,
a minha, em uma folha em branco.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Finitude.

Deixo a água me molhar,
arrasta-me sua correnteza
e, lá no fundo, tenho a certeza
de que eu não sou o mar.

domingo, 5 de fevereiro de 2012