segunda-feira, 30 de abril de 2012

Pus à mesa


Hoje, drenei de mim estas poucas palavras
como faço quando extraio esporadicamente
o cisto abaixo de minha orelha esquerda.
Espremi tudo o que podia até sentir-me dolorido e seco.

Vendo, agora, os resultados de minhas extrações,
colocando-as uma ao lado da outra,
na mesma mesa em que escrevo e me alimento,
não posso deixar de notar
que tudo o que toco em mim,
mais cedo ou mais tarde, infecciona.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Mesmo com toda essa luz
azul e branca
do céu de um Recife escarlate,
há um cinza,
naquela nuvem lá,
que me persegue.

quinta-feira, 8 de março de 2012

PSICOPOETA

Não mimo o verso, sou poetassassino.
Degolo o que parece alexandrino.

Amputo o soneto, mato em haicai,
torturo o verso-livre mais e mais;
as penas que tive, as dissemino

e espero que tenhas todas iguais.
Que é para ver se teu sangue me lava,
levando essa dor em tripa e palavra.

terça-feira, 6 de março de 2012

Quatro sonetos-amputados de deserto e ódio.

           I

Caminho neste deserto de abril,
arrasto meu cadáver branco-anil.

O sol torra minha cara imbecil,
há sangue seco em meu nariz quebrado
e ressentimento em meu olho vidrado.

Nas areias, vejo o enésimo cantil,
- Talvez nele haja um gênio ou um anjo alado...
Não. Tal qual meu corpo está vazio.

           II

Carrego meu peso morto nas costas...
Na duna, escorrego pela encosta.

Caímos ombro a ombro e nos encaramos,
olho a bocaberta com que falei...
já não importa ter sido poeta ou rei...

Minha pele mais parece um pano,
Acaricio a face com desengano:
não posso mais retroceder, eu sei!

           III

Resta seguir até um oásis qualquer...
E vago incrédulo, como São Tomé...

Busco água, não para matar a sede,
pois ela já me matou sem piedade,
nem se importou com minha pouca idade.

Busco água e um rio com pradaria verde,
Onde possa recordar, me vingar.
Lá, me dissolver e o contaminar.

           IV

E, assim, quando me tornar diarreia,
serei mais que da vingança uma ideia.

E matarei talvez todos teus filhos,
contaminarei plantações de milho,
nesta  minha tão impiedosa reestreia.

E, no desfecho de minha sombria ópera,
todos sentirão sem mover um cílio
a dor mais terrível de minha cólera.




sábado, 3 de março de 2012

Sniper

A palavra atira o seu projétil.
Sibila 
no entendimento.
Se bala:
sílaba! 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Nem sempre infeliz loucura

Levava um sonho alado
e um sombreiro enorme
feito de espuma de colchão,
onde do alto se viam uns sinais,
alguns círculos concêntricos
para se o talvez do acaso viesse
buscando-o para outro lugar
de espaço-naves ou discos-voadores,
o levassem e o reconhecessem como amigo
também habitante das estrelas.

Corria em meio a avenida
num ruflar de asas-depenadas
como um carcará desalado.
Desolado corria como se fosse
para tentar um novo impulso
e de súbito subir, decolar...

E, talvez, com seus pés de Hermes,
seus sonhos compensassem seus vermes.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Reescrevendo e PALAVRANDO

PALAVRANDO

Cada pá lavra seu campo
a minha, uma folha em branco.

Se mente do fruto ou da flor
colhida na intensidade da cor
forjando seu cheiro doce 
não é como se a culpa fosse
desta borracha-durafoice
a talhar as hastes dos sentimentos
e a espalhar seus restos e sedimentos
no chão do inconsciente.
Tão pouco é culpa da chuva
e seu gotejar inconsequente
que não permite que feijão ou uva
brote, ecloda de sua semente.

Culpada é a própria pá
que não lavrou
o campo certo
e este mau-agricultor
que se descuidou
deixando a semente exposta,
fraturada a céu aberto.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Palavrando

Cada pá lavra em seu campo,
a minha, em uma folha em branco.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Finitude.

Deixo a água me molhar,
arrasta-me sua correnteza
e, lá no fundo, tenho a certeza
de que eu não sou o mar.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Quando não falam os anjos.

Vamos lá, sobe, decola soneto
como uma poesia augusta, angélica e caída.
Distingue-te de uma batráquia vida,
dispensando o coaxar d'outro poemeto.

Lembra aquele momento purulento
ao abrir-te a própria e tão branca barriga,
restou só a cicatriz, onde houve a ferida,
mas lateja ainda no áspero cimento.

Decola, na tua asa dolorosíssima,
a enganar-se na esperança mais íntima
dada ao teu ensanguentado coração.

Pode ir. Em, tua dor, respira a verdade
sobre essa mentira da humanidade
que se mata no mesmo mundo cão.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Deus ex machina

Cansei de me perguntar!
A vida é só a vida,
morrer é não estar lá!

...

Estás louco,
já sabes!
Nada mais natural
a esta altura da vida.

Já perdeste o bom senso
e teu senso de direção,
já desvias das linhas retas
e avanças por contramão

Já sabes que enlouquecer
não foi um processo rápido,
mas igual ao que haviam dito:
mais penso, menos capto.

Tu, louco de pedra,
nu, poeta demente,
profeta do apocalipse,
risca o copioso fósforo
ao querosene em tua cabeça.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

DARWIN

Por um descuido
esmago um sapo.
Em minha mente
fica seu retrato.
Ficam suas tripas
em meu sapato.
Enquanto limpo
o seu substrato,
firmamos um
só mudo pacto:
adapte-se.